A Última Crónica


Diário dos Açores, jornal onde foram publicadas as 50 crónicas

Nunca gostei de despedidas, pelo facto de deixar-nos com um sabor amargo na boca, um nó na garganta, mas admito que são inevitáveis o que é o caso desta minha ultima crónica… uma despedida.
Foi um prazer poder mais uma vez colaborar neste prestigiado jornal de uma riqueza cultural invejável, com uma história que tem sido contada ao longo de 141 anos, o mais antigo jornal diário do arquipélago, com uma leitura desertificada sendo os Açores a sua tónica principal, mantendo os seus leitores sempre fiéis durante largos anos.
Quando optei por este órgão de comunicação social pensei essencialmente nos seus leitores e que através das minhas crónicas poderia despertar algumas consciências e trazer-lhes uma matéria mais suave que trouxe-se algo refrescante.
Durante um ano escrevi pelo simples prazer de escrever, de contar a realidade de saudosos tempos da minha infância, adolescência e juventude, foram precisamente cinquenta as crónicas, com temas tão variados como, as nossas tradições, a impressa regional, a natureza, o cinema, os amigos ou a família… etc., e tudo isto sempre como pano de fundo a ambiência da saudosa Calheta Pêro de Teive.
A escrita nem sempre flui como nós desejamos, certamente reescrevia alguns artigos, mas consegui o meu objetivo, partilhar experiências e vivências, porque os meus relatos chegaram aos da minha geração que reviveram memórias e aos mais jovens que acharam algumas vivências hilariantes.
Alguns amigos e conhecidos trocaram opiniões comigo mas o que mais me marcou foi o fato de alguns comentarem que as minhas crónicas para além de os terem feito viver o passado, transmitiu-lhes a ansiedade de partilhar com os filhos as sua aventuras e implantarem algumas tradições com eles.
Eu mesmo partilhei com amigos outras recordações não relatadas e duma humilde crónica nascia um convívio são sem ser virtual.
Gostaria de deixar aqui um agradecimento muito especial ao Diário dos Açores que me acolheu bem como a todos quantos aguardavam expectantes semanalmente a minha escrita e foram ao longo deste ano incentivando-me a continuar a escrever.
Estas crónicas deram origem a um blogue ilustrado com fotografias de acordo com o tema, o mesmo poderá ser visitado em http://otrechodavida.blogspot.com/
A todos um bem-haja.

João Freitas

Respeitar a Natureza


O Dia do Calhau

Os Açores são por natureza um território paradisíaco de grande beleza, com áreas protegidas e de locais reconhecidos mundialmente como as sete maravilhas naturais de Portugal ou pela UNESCO com a distinção de património mundial, a Angra do Heroísmo ou á Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico.
A natureza é uma presença constante no nosso dia a dia, e existe quem defenda que desfrutar dela faz bem á saúde, no entanto é preciso ter cuidado com o que fazemos não vamos estragar um bem tão precioso.
Para quem gosta do contacto com a natureza as nossas ilhas são sem dúvida o local certo para passar umas férias de sonho, é pena que muitos açorianos assim não o entendam e preferem o Algarve ou as Canárias para o fazer, assim nunca iram descobrir o paraíso onde vivem.
Recordo com saudades duas actividades que antigamente tinha por habito praticar no verão, uma era o campismo que era feito nas margens da Lagoa das Furnas, embora se trata-se de um campismo não controlado, existia um respeito pela natureza e um saudável convívio entre naturais da terra e turistas. À noite as fogueiras eram um pretexto para uma noitada passada numa alegre cavaqueira, onde imperava a música, as anedotas e por vezes bailaricos. Muitas famílias deixavam as suas tendas montadas e iam trabalhar a Ponta Delgada regressando no fim-de-semana, as mesmas eram asseguradas pelos outros campistas que estavam de férias.
O outro era o dia do calhau que decorria num Domingo de Setembro e tinha lugar no calhau por detrás do estabelecimento prisional de Ponta Delgada, hoje desaparecido para dar lugar ao prolongamento da avenida marginal. Éramos um grupo de amigos coesos que dedicavam um dia ao mar. As mulheres eram responsáveis pelo almoço que era confeccionado com o fruto da pesca submarina e de pedra. Enquanto uns pescavam outros iam preparando o local para cozinhar. Os mais pequenos deliciavam-se a mergulhar nas límpidas e transparentes águas.
Após o almoço, enquanto se fazia a digestão, iniciava-se o ritual duma jogatina de cartas, cantigas ao desafio e anedotas. O dia não terminava sem um belo mergulho.
Hoje é quase impensável em S. Miguel fazer-se campismo livre, porque muitos de nós não soubemos respeitar a natureza e tiveram que nos impor regras para a proteger. Passar um dia no calhau está fora do conformismo que nos habituamos.

João Freitas

O Dia da Raça

Com cara de poucos amigos a caminho da escola

Faço parte de uma geração que começou os estudos primários nos finais da década de 60. A estrutura da escola era dividida entre o sexo masculino e feminino, as secretárias continham um orifício para o tinteiro que servia para a nossa “esferográfica” de pena, o uso da bata branca era obrigatório. O rigor imperava nas salas de aula, todas as matérias que eram bastante diversificadas como por exemplo história de Portugal, matemática, leitura, caligrafia, geografia, ciências da natureza eram estudadas com afinco e na 4ª classe onde se tinha de fazer exame escrito e oral estudava-se também o corpo humano. Este exame era supervisionado por um inspector da Direcção escolar.
Os nossos cadernos tinham que ter obrigatoriamente um aspecto limpo e ordenado, quando se fazia um ditado na sala de aulas, empenhávamos com uma atenção desdobrada, para não borrar a escrita, para o efeito tínhamos o mata borrão.
Naquele tempo, havia muito respeito e educação pelos professores, eram encarados como os substitutos dos pais, os castigos faziam parte do ensino, na sala de aulas o silêncio era absoluto e quem não soubesse a tabuada habilitava-se a conhecer a tão famosa palmatória.
Hoje passados mais de quarenta anos desde os tempos da escola primária ainda tenho na memória como era comemorado o Dia da Raça naquele tempo.
Vários são os nomes que atribuíam à data do 10 de Junho: Dia da Raça, Dia de Camões, Dia de Portugal ou Dia das Comunidades, no entanto o que ficou mais conhecido e do qual hoje em dia ainda é mais comum dizer-se é o Dia da Raça.
O dia começava como todos os restantes do ano lectivo, de pé em sentido cantava-se o hino nacional e rezava-se um Pai Nosso ou uma Avé Maria, isto sob os olhares austeros de Américo Tomás e Marcelo Caetano, omnipresentes nas fotografias emolduradas nas paredes da sala de aulas.
Após formalizado o primeiro acto do dia, as classes de cada sala reuniam-se no recreio da escola e formávamos dois a dois com o professor á cabeça, comandando o grupo que de olhos fixos nas nucas da frente lá marchavam até ao Campo de São Francisco para assistir a um discurso do qual ninguém percebia e á missa cantada na igreja de São José com a presença da Mocidade Portuguesa.
Eram assim os tempos de escola de antigamente no Dia da Raça que se regia por regas Deus, Pátria, Religião, Respeito, Rigor e “camaradagem” entre colegas.

João Freitas

A Nossa Emissora

A casa onde nasceu o Emissor Regional dos Açores

Há setenta anos, os açorianos ouviam pela primeira vez a transmissão radiofónica do Emissor Regional dos Açores que mais tarde se designou por RDP/Açores e que hoje é a Antena 1 Açores.
O homem, desde sempre teve necessidade de comunicar, trocar ideias, expressar opiniões, transmitir conhecimento ou partilhar algo com o seu semelhante e assim os Açores não fugiram á regra, recorde-se o quanto a nossa região é rica em publicações de jornais, revistas e estações de rádio.
Da rádio todos nós temos boas recordações e certamente não poderíamos viver sem ela, recordo-me por exemplo os tempos em que não havia televisão, dos serões que se passava a ouvir o Emissor Regional dos Açores que carinhosamente denominavam-mos de “a nossa emissora” onde tudo se vivia desde a música, notícias, rádio novelas, relatos de futebol e de hóquei em patins, etc.
Apesar das décadas que já volveram desde o aparecimento da Antena 1 Açores, penso que a estação está cada vez mais jovem e actualizada e contínua a ter um papel fundamental na vida dos açorianos e no desenvolvimento da região.
Recordo-me dos grandes radialistas que fizeram a história da rádio nos Açores e que passaram pelo Emissor Regional dos Açores ou aqueles que ainda estão no activo, foram e são profissionais sem paralelo. Alguns dos quais eu tive o prazer de trabalhar, não na rádio mas noutros meios de comunicação social como por exemplo nos jornais Correio dos Açores ou Açoriano Oriental, onde muitos destes profissionais colaboravam.
Embora seja muito vasto o reportório das minhas recordações das transmissões da Antena 1 Açores, três marcaram a minha infância, quando o homem foi à lua, a noticia de que a Simone de Oliveira teria perdido a voz e quando o presidente do conselho do estado novo, Marcelo Caetano falava ao pais, a opinião era generalizada entre o povo, quando o presidente do conselho falava era sinal que os bens essenciais iriam subir de preço naquela semana.
Toda a minha vida estive e tive a companhia da rádio, desde os velhinhos transístor a pilhas até ao auto-rádio, ou telemóvel, que hoje ninguém dispensa.

João Freitas

Actividades Lúdicas

Brinquedo de lata (folha-de-flandres)

Nos longínquos anos sessenta e setenta muitos jogos e brincadeiras animavam o dia a dia das crianças e adolescentes, como por exemplo os tão famosos io-iô, cubo mágico, lego de construções, carros de corda, ula ula, skate etc…
De todos esses brinquedos eu tive a felicidade de brincar, mas realmente dos que hoje tenho as maiores recordações são sem dúvida dos que a minha geração tivemos o engenho de construir, com os poucos recursos, matéria-prima ou ferramentas que na altura possuíam-mos.
Toda a nossa vida é um somatório de memórias, mas aquelas que possivelmente nos fica no nosso coração serão quase sempre as memórias da nossa infância.
Eram tempos em que não havia consolas de jogos, nem muito menos computadores, os brinquedos eram escassos e, guardavam-se religiosamente depois de cada “brincadeira” e se assim não fosse hoje não teria alguns deste brinquedos quase como novos para poder recordar.
Quem não se lembra de construir os tão apreciados papagaios de papel, feitos com cana e papel de seda colorido, colados com cola cisne, que o resultado final era quase sempre um êxito, quase sempre porque de vez em quando os fios de electricidade que atravessem as ruas por vezes eram um entrave ao voar da brincadeira.
Mas não era só os papagaios de papel que se construía, eram as fisgas (fundas), o stick e as mascaras de guarda-redes de hóquei em patins, os carrinhos de esferas, os arcos e flecha a imitar o Robin Hood e muito mais, como por exemplo no verão as embarcações que se construía para navegar no porto da Calheta e que não passava mais do que uma câmara de ar de um pneu de tractor que na sua base era fechada com tábuas bem amarradas com corda de sisal e que dava uma embarcação segura e espaçosa.
De todos estas construções feitas de materiais reciclados, os carrinhos de esferas era a que tinha maior sucesso, construído por uma engrenagem artesanal de madeira e quatro rolamentos que nós chamávamos de esferas.
Actualmente tudo isso se perdeu, as crianças passam a maior parte do tempo á frente da televisão ou de um computador.
Por vezes interrogo-me se todas estas coisas boas que eu vivi na minha infância, não seria uma boa atividade lúdica para os país ensinarem aos seus filhos.

João Freitas

A Labuta do Dia a Dia


O meu pai para além da sua profissão, fazia um part time no Museu Carlos Machado

Hoje em dia quando se pede sacrifícios aos contribuintes ou á população activa para darem o seu melhor, para que o nosso país possa superar uma situação menos boa do qual se encontra, a maioria ou talvez a grande parte dela, torce o nariz e parece que “cai o Carmo e a Trindade”.
Estou recordado de na minha infância á mais de quarenta anos, como era difícil o dia a dia dos portugueses, como era penoso sustentar uma família, pouca gente tinha automóvel ou casa própria, as famílias na sua grande maioria só tinham uma fonte de rendimento, a do homem pois muito poucas eram as mulheres que trabalhavam fora do seu lar.
Lembro-me perfeitamente do percurso profissional do meu pai que trabalhou mais de cinquenta anos como fotógrafo não falando do tempo militar, e que hoje goza de uma reforma merecida embora de uma quantidade monetária modesta para quem tanto tempo contribuiu para o desenvolvimento do nosso pais.
Recordo-me como eram difíceis os tempos de outrora, quando se trabalhava seis dias por semana, oito horas por dia incluindo os sábados e aos domingos para se ganhar mais uns extras era necessário ir fazer reportagens de casamentos, até a terça-feira de carnaval era dia normal de trabalho.
Hoje é difícil imaginar como era Portugal á quarenta ou cinquenta anos atrás, não havia acesso a coisas que hoje fazem parte do nosso dia-a-dia e que nos são tão banais, como por exemplo um simples microondas ou um isqueiro a gás.
Na minha família também tive imigrantes como a maioria das famílias dos Açores, tive por exemplo a minha bisavó materna que teve de imigrar para o Brasil onde trabalhou nas “roças” de café e da cana do açúcar, numa altura em que só a tormenta da viagem até ao Brasil era um martírio, pois os barcos eram á vela e com condições de higiene e de alimentação muito precárias.
Como eram difíceis os tempos em que me criei, tenho na memória o trabalho árduo da terra, o meu avô paterno trabalhava de sol a sol como estufeiro, cavando e aguando as estufas sem ajuda de nenhuma máquina.
E é assim que recordando o passado penso que os portugueses reclamam por tudo e por nada, é certo que ninguém gostava de passar pelas dificuldades de outros tempos, mas para isso temos todos de dar as mãos e trabalhar para o futuro da nação, e para que mais tarde falem de nós com o mesmo orgulho que falo dos nossos antepassados. 

João Freitas

A Saudosa Calheta

O Porto da Calheta Pêro de Teive

O porto da Calheta Pêro de Teive desaparecido á mais de vinte anos ainda hoje deixa saudades a quem lá trabalhou, viveu, nasceu ou simplesmente quem apreciava o seu pitoresco porto de pesca.
A Calheta Pêro de Teive era um porto de pesca artesanal, criado de um acidente geográfico natural. Hoje desaparecido devido ao aterro a que foi sujeito por via da necessidade do prolongamento da Av. Marginal e da construção da Marina de Ponta Delgada.
Como já tive oportunidade de referenciar, aqui neste espaço, nasci e fui criado neste local de estrema beleza de uma envolvência social e económica peculiar. Vivi momentos únicos entre as embarcações e a azafame da vida piscatória desde a minha infância até à adolescência.
Existiram momentos marcantes, ensinamentos de vida, da observação e vivência indirecta da dureza da vida dos pescadores.
Vivia precisamente na Rua do Poço, onde existem hoje viaturas ligeiras estacionadas, na minha infância eram as embarcações de pesca que se refugiavam das intempéries.
A Calheta Pêro de Teive era um dos meus locais preferidos, os barcos eram o nosso porto de abrigo nas brincadeiras de infância, as suas águas límpidas repletas de peixe, eram local de eleição para nadar e pescar.
Os pescadores tinham uma relação muito forte com a população local e existia um respeito mútuo. As pequenas embarcações “chatas” que estavam atracadas junto ao molhe eram muitas vezes usadas pela rapaziada que ia dar uma volta de barco. O nosso cuidado e responsabilização com as mesmas era transmitido e vivido por todos quanto faziam uso delas, pois não queríamos perder a confiança dos seus proprietários. Na adolescência a maior parte dos serões passava-se sentados no paredão a conversar e a tomar um copo com os amigos ou a fazer novas amizades.
A Calheta Pêro de Teive era também um porto de abrigo para os aventureiros que se faziam ao mar a percorrer grandes distâncias, embora atracassem as suas embarcações junto à Doca iam parar à Calheta. A ambiência era por vezes caricata pois muitos de nós não falávamos inglês ou alemão, os gestos predominavam e lá nos entendíamos.
Tenho um sentimento de pesar por algumas pessoas mais jovens não terem tido o prazer de conhecer a Calheta Pêro de Teive.

João Freitas

A Imprensa Regional

Laboratório fotográfico, é bem visível a falta de condições.

Os Açores há mais de século e meio é rico em edições de jornais diários, semanais e mensais bem como de revistas culturais em dezenas de títulos que têm acompanhado a evolução dos tempos e os aspectos sócio económico e culturais. Embora se tenha perdido a maioria dos títulos.
Desde 1980 tenho colaborado com alguma regularidade com jornais e revistas, durante este percurso assistiu á evolução desde o chumbo até ao digital.
O jornal Açoriano Oriental fez parte do meu percursos profissional, como paginador e fotógrafo, durante alguns anos.
O ambiente de trabalho era de inter-ajuda. Embora os recursos tecnológicos fossem bastante limitados não abaixávamos os braços, arregaçávamos as mangas e solucionávamos qualquer percalço que surgisse.
As nossas limitações aguçavam a nossa imaginação e capacidade de desenrasque. Não nos podíamos dar ao luxo de esperar que um técnico chega-se de Lisboa ou do Porto para resolver o assunto.
Por vezes as correias das máquinas partiam e eram substituídas por meias de senhora.
O jornal não podia deixar de estar nas bancas no dia seguinte, nem que para isso tivéssemos que ficar até de madrugada. Só saiamos quando a nossa tarefa diária estivesse terminada. Estas horas a mais eram passadas num ambiente responsável mas extremamente animado, onde imperava a boa disposição. As horas passavam sem darmos por elas, era um prazer trabalhar com uma equipa que só tinha em mente orgulhar-se da empresa onde trabalhava.
O jornal Açoriano foi assolado por 2 vezes por um incêndio que destrui parcialmente as oficinas, perante tal desgraça não se ficou a chorar sobre o leite derramado, arranjou-se uma máquina e no outro dia o jornal estava nas bancas, embora com apenas quatro páginas.
Entre todos nós existiam figuras carismáticas que nunca esquecerei. O João Paulo e eu fazíamos uma parelha única, um fazia o outro compunha, as partidas entre colegas em geral eram bem aceites.
O professor Andrade e o senhor Lima, homens de um profissionalismo, difícil de se encontrar nos nossos dias, munidos de uma cultura geral invejável eram as nossas referências.
O tempo que trabalhei no jornal Açoriano Oriental constitui para mim uma lição enriquecedora que ainda hoje faço uso da minha aprendizagem.

João Freitas

A Magia do Sr. Disney

Walt Disney 1901 - 1966

Sempre estive convicto que a magia do senhor Disney dificilmente deixaria de invadir a fantasia dos mais pequenos, noutro dia tive a confirmação que ela ainda perdura e irá prolongar-se por mais tempo.
Obtive a certeza numa conversa com o meu pequeno amigo Simão.
Eu e a minha esposa temos o privilégio de pelo menos uma vez na semana irmos buscar o nosso sobrinho ao colégio. O Simão tem apenas 4 anos, mas vaidade á parte, é uma criança muito inteligente, educada, alegre que goza os pequenos e os grandes momentos que lhe surgem no quotidiano, uma criança feliz.
As conversas entre nós e o Simão são sempre diversificadas, na semana passada o tema foi acerca dos personagens da Disney. A minha esposa questionava-o acerca dos personagens que ele conhecia se ele sabia quem representavam. Além de saber do relacionamento inter-pessoais entre elas ainda as conectadas de boas ou más. Mas o que mais me surpreendeu foi quando ele referenciou o professor Ludovico. Convencido que ele estava a falar do professor Pardal, eu disse que era o Pardal, ele saiu em defesa da sua personagem, afirmando que ele era muito inteligente e bom. Não é que sendo um acérrimo leitor da banda desenhada da Disney já me tinha esquecido de tal personagem.
Fiquei encantado com o facto do meu sobrinho não ser apenas fan dos Gormitis.
Ao longo dos tempos temos sido invadidos por vários personagens animados tais como o Tintim, que surge um ano após o Mickey Mouse em 1929, o Noddy, a Pantera Cor de Rosa, a Mafalda, o Ruça, o Vitinha etc, mas nem todos agradam no geral, no entanto ainda não conheci ninguém grande ou pequeno que não gostasse de um dos personagens do senhor Disney.
Evidente que entre todos o Mickey Mouse é o que tem conquistado mais fans.
Pretendo neste espaço deixar a minha homenagem ao senhor Walt Disney que nos deixou um legado que tem passado de geração em geração. A do meu pai a minha e agora a dos meus sobrinhos.
Lembro-me na minha infância o valor que tinha um livro dos “patinhas” era guardado religiosamente, era um tesouro mais valioso que os cromos da bola, mais do que o cromo do Eusébio e das tão famosas revistas do Capitão América.

João Freitas

Os Jogos Olímpicos

O torneio de futebol dos Jogos Olímpicos

No período de férias escolares que estão a decorre, nalgum tempo (á mais de trinta anos) era aproveitado por mim e pelos meus amigos da rua do Poço e Negrão para a realização anual dos nossos Jogos Olímpicos.
Talvés pelo facto de termos sido criados a ouvir a triste história das XX olimpíadas que foram realizadas em 1972 em Munique que foram manchadas pelo terrorismo de cinco árabes do grupo terrorista Setembro Negro, que custou a vida a onze atletas Israelitas, ficou-nos para sempre na cabeça os Jogos Olímpicos.
Os nossos jogos eram organizados pelo Luís Miguel Martins, que todos os anos com a sua dedicação e paciência juntava um grupo de amigos das ruas já referidas e desafiava-me a fazer o mesmo com os meus amigos.
As nossas olimpíadas eram realizadas numa semana e só com duas equipes a rua do Poço (Inglaterra) e a rua do Negrão (França).
Naquele tempo éramos miúdos com pouco mais de treze anos e embora tivéssemos conhecimento que os Jogos Olímpicos se realizavam de quatro em quatro anos, para nós era um desperdiço de tempo este interregno. Realizávamos os nossos anualmente e na Primavera, porque no Verão as brincadeiras eram outras mais viradas para a natureza.
As modalidades que eram praticadas nas nossas olimpíadas eram poucas como por exemplo o futebol, hóquei em campo, hóquei em patins, esgrima (praticada com dois paus), judo (mais parecido com luta grego romana), atletismo (50 metros, lançamento de peso, maratona 3 quilómetros e salto em comprimento), jogo de damas e um jogo inventado por nós que era um tipo de críquete.
Num determinado ano tentamos acrescentar o salto á vara, não queiram saber o resultado final.
Um dos anos em que se realizou esta brincadeira as duas equipes não sei porquê não se entenderam (birras de miúdos) e os jogos tiveram de ser desempatados com um jogo final damas, a uma só mão e quem ganhasse levava a taça. O jogo foi disputado em casa do adversário, na França, reinava um mau estar no ar, o representante da outra equipa foi sozinho. O jogo foi disputado e ganho pela Inglaterra.
O resultado final naquele dia não foi o mais importante mas sim o facto de termos feito as pazes e continuado amigos a pensar nas próximas Olimpíadas.
Embora possa parecer repetitivo relembro ao senhor leitor o quanto éramos criativos e empreendedores, pois mesmos sem meios não deixávamos de realizar os nossos sonhos e ambições.
Feliz Páscoa.

João Freitas

O Amigo Jori

O Jori e o seu estilo

Desde criança que fui instruido pelos meus país a respeitar e acarinhar os animais.
Durante a minha infância e adolescência tive 2 gatos o Chico e o preto, uma cadela a Diana e a estrelinha, uma bezerra.
Após o casamento as espécies foram aumentando e variando, galinhas, periquitos, peixes, tartarugas e peixes de água doce e água salgada e hamsters.
No entanto existem alguns que me marcaram pela sua inteligência e destreza.
O Jori (João+Rita) foi um cão abandonado que eu e a minha esposa acolhemos, este surpreendia todos quantos nos visitavam. Ele sabia a sua posição na família o “menino bonito” e fazia uso desta, mantendo a distância ou confraternizando de acordo com a ambiência.
O nosso amigo e companheiro adorava andar de mota, quando nos via agarrar os capacetes sentava-se olhando para nós a aguardar que lhe puséssemos o dele. Na mota colocava-se entre o volante e eu, condutor, de pé nas patas traseiras e com as dianteiras pousadas no volante.
Entre os familiares e amigos havia alguém que era irresistível para o Jori, o meu cunhado Marco. Na altura ele tinha um citroen 2 cavalos que fazia as suas delícias sentava-se no banco da frente com o cinto de segurança posto e lá ia passear.
Existe um episódio caricato que se passou com a minha contra cunhada. Numa noite combinamos passar um serão lá em casa, o Marco foi buscar a Bela a casa e esta quando se aproximou do carro reparou que o banco dianteiro estava ocupado entrou e delicadamente disse “boa noite senhor”, o Marco olhou para trás e retorqui rindo desalmadamente “isso é o Jori” desataram os dois á gargalhada.
A hora do banho do Jori e o local variava consoante o tempo “Jori está mau tempo” ele dirigia-se para a casa de banho e saltava para a banheira, “Jori está bom tempo” deslocava-se para o quintal para uma boa mangueirada.
O Gaspar era um periquito muito engraçado, ficava indignado quando se abria a porta da gaiola, só saia para pousar na mão da mina esposa.
A Lolita, filha de cães de circo, foi criada com o Snopy (cocker) era extremamente ágil e irrequieta quando vinha para dentro de casa saltava para os móveis abria as portas dos armários, vasculhava toda a casa. O Snopy tinha um inimigo no quintal, o senhor feliz, galo da madeira, que estava para poucos amigos, ambos envolviam-se em lutas ferozes que terminou na morte do Feliz.
Seja amigo dos animais e irá surpreender-se.

João Freitas

Gelados

Sabores para todos os gostos

Esta semana o Google publicou na sua página uma notícia que dava conta do aniversário dos gelados Sundae, este fez-me recordar o impacto que os gelados tiverem na nossa infância.
A origem do gelado é muito vasta, existem várias versões, há quem diga que vem dos Árabes ou dos Chineses, ou talvez do Império Romano visto que Nero teria mandado trazer neve e gelo das montanhas e misturá-lo com frutas, o que é certo é que ninguém sabe a verdadeira origem de tão apreciada sobremesa.
O gelado hoje em dia tem muito que se diga, são marcas e mais marcas de todos os sabores e feitios, são um sem números de sabores de todos os países, e diga-se a abono da verdade que são uns melhores do que os outros e por vezes difíceis de escolher, como por exemplo as marcas de franchising dos Estados Unidos da América, Bélgica, Holanda ou Espanha.
No tempo em que me criei estas guloseimas não tinham esta projecção, não existia nem lojas da especialidade nem tanta quantidade à escolha, o que existia era somente duas opções, os gelados Esquimó ou os Bemvita o que para a nossa época era uma raridade, numa terra tão pequena como a nossa haver a boa vontade de dois empresários a produzir um produto de segunda necessidade era de aproveitar.
Hoje em dia quem me conhece sabe que sou um grande apreciador de gelados, no verão ou no inverno com sol ou com chuva quem gosta, gosta.
Mas o que realmente faz falta são os gelados que na minha infância eram vendidos pelas vizinhas da rua do Poço, a vizinha Clotilde e a Noémia ou no Cine São Pedro pelo senhor Laudalino que por escudo e meio faziam uns gelados de cacau que até hoje a minha gustação recorda, sim porque os sabores e os cheiros ficam eternamente na nossa memória.
No entanto os meus gelados favoritos eram sem duvida os da minha mãe, não só porque eram mais saborosos e não custava nada, podia comer quantos eu quisesse e a que horas fossem, bem quantos eu quisesse não era bem assim, porque se assim fosse hoje em dia estaria muito mais obeso do que sou.
Para terminar queria contar uma história que realmente me deixou agradado ao ver há poucos anos em Rabo de Peixe um grupo de miúdos com pouco mais de sete anos a comer uns gelados em copos de iogurte, ao pergunta-los que tipo de gelado era aquele a resposta foi unânime, “são iogurte frisados, a gente compra na loje e bota no frigife“ isto não tem nada de extraordinário mas ao ver aqueles miúdos que com poucos recurvos económicos não deixaram de ter o seu gelado (talvez um iogurte seja mais caro do que um gelado dos mais baratos mas enfim), leva-nos a pensar que talvez tenhamos alguma coisa a aprender com eles.

João Freitas

Malandrices

Os prédios de apartamentos da Av. D. João III em construção

Por vezes, em conversas com os meus amigos de infância, abordamos as “malandrices” e os lugares das nossas brincadeiras, e quase sempre fico com a ideia que o tempo teima em acabar por apagar quase tudo. Isto porque seria normal ver as gerações posteriores á minha ter as mesmas atitudes, como foi normal a minha ter copiado das gerações anteriores, exemplo era as brincadeiras do tempo do meu pai que nós os que hoje estamos na casa dos 40 (quase 50) copiamos.
Embora de uma geração anterior á revolução de Abril de 74 e que penso responsável, tenho a consciência de ter participado em algumas partidas aos vizinhos que de nada me possa orgulhar hoje em dia.
Já muito tenho escrito sobre a minha infância e juventude e sobre como tenho pena de não ter tido as tecnologias que a garotada tem hoje em dia, no entanto acho que a minha geração foi sem duvida mais feliz e naturalmente mais saudável, brincando ao ar livre sem as preocupações das actuais.
Recorde-me de muitas das partidas que pregávamos aos vizinhos, principalmente os que moravam nos prédios que na altura tinham acabado de serem construídos na Avenida D. João III.
E não julguem que era simples partidas de bater á porta e fugir, não, era uma coisa mais bem elaborada, como por exemplo amarrar com uma corda bem grossa uma porta á outra, após estarem bem atadas batíamos ás duas campainhas em simultâneo, as portas abriam-se e como é evidente cada vizinho puxava a porta para o seu lado, o mais engraçado era quando um deles mais esperto tentava pôr a mão no lado de fora da porta e o vizinho em frente largava a sua e trancava-lhe os dedos.
Outra partida bem maldosa era pegar numa folha de jornal ir a uns pastos que existia onde hoje é o “Hotel Lince” embrulhar a maior bosta de vaca que encontrávamos no jornal depois colocávamos na porta de um vizinho nos prédios, largávamos fogo ao jornal e batíamos á porta era esperar para ver o resultado, a aflição bem como a reacção era sempre a mesma, tentar apagar o fogo com os pés, estão a ver o resultado final.
Do grupo de amigos da minha adolescência havia, um que infelizmente já faleceu, que tinha um descaramento que mais nenhum de nós o tínhamos, uma das partidas preferidas dele era pôr-se no canto em cima da rua do Poço com uma mala de viagem a fazer um pranto, a chorar “baba e ranho”, quando alguém ao passar lhe perguntava o que se passava a resposta era sempre a mesma, “a minha mãe mandou-me para o seminário e estou perdido”, as pessoas aprontavam-se a ajudar a levar o pobre rapaz ao local, este desatava ás gargalhadas irritando quem tinha sido enganado.
Agora os anos passaram e vejo os sobrinhos e filhos dos meus amigos a não terem possibilidade de fazerem estas traquinices. Um dia vou contar-lhes que existiram tempos e vizinhos, que nos davam a inspiração para muitas e belas partidas.

João Freitas

Ladainhas, Rezas e Mezinhas


Especiarias do oriente, muito usadas na medicina popular
Como todos nós sabemos, Portugal foi um país que deu um contributo essencial para delinear o mapa do mundo, com os descobrimentos marítimos portugueses entre 1415 e 1543 que começaram com a conquista de Ceuta na África.
A nossa cultura, a nossa gastronomia, as nossas crenças e as nossas mezinhas caseiras certamente que sofreram influência trazida pelos marinheiros das terras onde andaram ou descobriram para o mundo que somos hoje.
O povo português nos seus costumes, crenças e tradições sempre souberam aproveitar o que de bom aprenderem com outros povos, os Açores não são excepção como é do conhecimento geral somos uma região de emigrantes espalhados pelos quatro cantos do mundo.
Destes conhecimentos que vieram tanto das Índias como do novo mundo ou dos países africanos, muitos dos costumes de que hoje em dia ainda prevalece e de que todos nós recordamos na nossa memória, como as rejas e mezinhas.
O mar trouxe-nos o sabor das especiarias, o oiro do Brasil mas também o olhar triste de um povo acostumado a despedir-se dos seus entes queridos.
As mezinhas são quase tão antigas como a existência da humanidade.
Ainda me lembro, quando havia alguém com uma dor de cabeça muito forte, descascavam-se quatro ou cinco rodelas de batatas, envolviam-se num pano e colocavam-se em contacto directo à volta da cabeça. Por coincidência ou não o que é certo é que as dores de cabeça passado um bocado passavam. A medicina tradicional tem prevalecido ao longo de séculos e contribuído para o nosso bem-estar. Não devemos subestimar a sabedoria popular.
As rezas fazem parte do nosso quotidiano exemplificando após amassar o pão ou malassadas faz-se uma cruz sobre a massa sovada e em simultâneo diz-se “Pai, Filho e Espírito Santo”, á noite as crianças pedem ao anjo da guarda para os guardarem de noite e de dia.
A palavra ladainha vem do grego e significa súplica. Mas desde o início da Igreja ela foi utilizada para indicar não quaisquer súplicas, mas as que eram rezadas em conjunto pelos fiéis que iam em procissão às diversas igrejas. Há, naturalmente, numerosas ladainhas, dependendo do que é pedido nas diversas procissões.

João Freitas

Peregrinos de Maria

Mais um ano cumpre-se a tradição
Romeiro, Romeiro... quem és tu?! Ninguém!
Na obra de Almeida Garrett, “Frei Luís de Sousa” de 1843 esta frase ficou famosa e teve um impacto que durou até hoje, não podendo estar mais adaptada à realidade dos romeiros desta ilha, na sua humilde caminhada atravessando de lés a lés, durante sete dias, por caminhos, atalhos e carreiros da ilha de São Miguel.
Esta prática de se reunir um grupo de homens de quase todas as freguesias da ilha é a principal manifestação religiosa dos Açores.
O seu início remonta a 22 de Outubro de 1522, após o terramoto de Vila Franca do Campo, tratava-se de uma manifestação espontânea das populações.
Os moldes atuais organizativos surgiram após a guerra do Ultramar.
O Bispo dos Açores Dº António de Sousa Braga afirmou que a Romaria não se explica, vive-se. Na realidade não é fácil transmitir as emoções que se vivem entre os irmãos. Embora nunca tenha participado numa romaria, durante anos tenho acompanhado grupos de romeiros, fotografando-os, no ambiente que envolve os romeiros sente-se uma paz, serenidade, igualdade e ajuda mútua na dor da penitência. Esta ambiência transpira para a população que acolhe os romeiros nas suas casas e nos que os aguardam nas estradas e ruas das freguesias para pedirem orações.
Na minha família tenho um exemplo desta envolvência, a minha mãe anualmente no dia anterior ao dia da família, quando os romeiros se reúnem com os seus, faz uma refeição para todos os irmãos do rancho das Sete Cidades.
A Romaria na minha opinião deverá ter uma continuidade anual nas ações dos romeiros. Tomemos como exemplo o Rancho de Romeiros de S. Pedro de Ponta Delgada que já fundaram o Museu do Romeiro e estão a angariar roupas para mandar para a Guiné Bissau.
Infelizmente já têm acontecido alguns acidentes de viação com ranchos de romeiros, nunca é demais deixar aqui um apelo a todos os condutores para terem uma condução mais atenta e moderada principalmente de madrugada, pois diariamente ás 04h00 da manhã os romeiros já se fazem á estrada.
João Freitas

Histórias da Calheta

Os atletas da Calheta

Todos nós temos boas recordações do local onde nascemos ou fomos criados, tenho na minha mente ainda memórias, de um lugar que foi sem dúvida, um marco importante na história da minha vida.
A freguesia de São Pedro embora ás portas da maior cidade dos Açores foi sempre um local com tradições, costumes e usos, parecendo uma aldeia rural, com muitas historias, boas e certamente algumas más, das recordações de infância ou juventude, aparentemente, adormecidas eternamente, surgem por vezes de forma tão clara e saudosista, como que a um convite a eterniza-las para não mais serem esquecidas, e para que isto aconteça é preciso conta-las aqui neste espaço.
A Calheta Pêro de Teive foi ao longo dos anos um local de histórias curiosas.
Numa noite eu e alguns amigos fazíamos o percurso da Rua da Fonte no volkswagen carocha do nosso amigo Cabral, quando encontramos inanimado no meio da rua um homem, reconhecemos de imediato “o caga na saca”.
Preocupados agarramos no homem e colocamos na viatura a caminho do hospital, ao chegarmos ás urgências o maqueiro de serviço ao ver quem era o suposto doente, correu connosco reclamando que era a 5ª vez que ele tinha estado no hospital naquele dia.
A outra história passou-se na Rua Eng. José Cordeiro o carocha parou perante uma perna no meio da estrada com meia e sapato. A coragem era pouca entre nós para confirmar o que se passava, mas lá foi o mais corajoso, entretanto o barulho de uma briga na rua paralela a Ladeira das Águas Quentes alertou-nos fomos ver a mesma, para nosso espanto era entre o “vedeta alemão” e um amputado.
O João Dâmaso era conhecido entre os amigos, por ser amigo do seu amigo, mas também por possuir um humor característico.
Num dia teve a brilhante ideia de organizar uma corrida com apenas uma pequena extensão de 200 metros, início no Café do Roquista e fim no Manuel Cigano, sendo os concorrentes três figuras peculiares e muito queridas na Calheta, um coxo, um deficiente motor e um idoso. Os mesmos envergavam o equipamento do Marítimo.
A referida corrida durou toda a manhã, pois todo o percurso estava devidamente apetrechado com bancadas com comes e bebes.
Estas histórias são apenas uma pequena parte de um grande reportório das minhas memórias.

João Freitas

Bodas de Ouro

Casamento dos meus pais 12 de Fevereiro de 1961
No passado dia 12 de Fevereiro os meus pais fizeram as suas bodas de ouro.
Pais exemplares têm estado sempre ao meu lado em todo o percurso da minha vida.
Com eles aprendi a gostar da vida e do que ela nos trás, aceitando o bom e o mau.
A eles devo o gosto pela cultura e pelas nossas tradições, pois foi com os meus pais que aprendi a vivê-las. Desde criança que fui habituado a ver a nossa casa cheia de amigos a comemorar o dia de amigos, amigas, compadres, comadres e carnaval. Para além destas os saraus eram frequentes.
Havia épocas mágicas por exemplo quando vinham os nossos amigos do circo, os serões prolongavam-se e eram repletos de magia.
Embora filho único não fui super protegido. Os meus pais deixaram-me crescer como uma criança e jovem normal, aprendendo com o quotidiano.
Recordo-me que eles obrigavam-me a acarretar a responsabilidade dos meus atos, em criança quando alguém me batia ou vice-versa, eles limitavam-se a manter a distância necessária a uma auto aprendizagem, só existia interferência caso a minha integridade estivesse ameaçada por um adulto.
Ao meu pai fui buscar o gosto pela fotografia e pela pesca, á minha mãe o gosto pela leitura e tradições.
Tenho a felicidade de ter sido criado num lar harmonioso. A minha mente não se recorda de uma palavra ou ato violento entre os meus pais.
Os meus pais têm feito um percurso de vida sereno, ajudando o amigo e o próximo.Não pense o leitor que estou a falar de dois idosos que se deixaram abater pela vida, pelo contrário, aproveitam todos os momentos para se divertirem, viajando pelo pais, restantes ilhas do arquipélago, vivendo as tradições e apreciando as culturas de cada lugar por onde passam.
Opino que o segredo de um casamento tão duradouro está na tolerância e parceria.
Nos nossos dias é quase impensável um casal manter a sua aliança matrimonial durante 50 anos.
João Freitas

Dia de Amigos

Jantar de amigos na casa dos meus pais nos anos 60

A partir de amanhã e durante quatro semanas todas as quintas-feiras são dedicadas a festejos muito particulares e com uma participação cada vez mais activa por parte de todas as faixas etárias, embora de modo mais generalista do que vivi na minha infância e juventude. Os mesmos têm o seu início com o dia dos amigos.
A tradição é micaelense e espalhou-se pelo arquipélago e Portugal Continental com as variantes que dominam estes dias actualmente, festeja-se em restaurantes, bares e discotecas, não esquecendo os strip-tease tanto masculino como feminino.
Conta a historia que o dia de amigos foi criado pelo argentino Enrique Ernesto Febbraro, a 20 de Julho de 1969, em Buenos Aires, na Argentina, com o propósito de comemorar o dia da chegada do homem á Lua e isto foi naturalmente adoptado a outros países do mundo.
Nos Açores e mais particularmente na ilha de São Miguel, esta tradição segundo alguns registos e relatos orais que passaram de geração em geração já existe há pelo menos cem anos, o que leva-me a dizer que a origem da ideia do Sr. Enrique Febbraro não tem qualquer relação com a nossa tradição.
Noutros tempos, estas quintas-feiras amigos, amigas, compadres e comadres eram passados com patuscadas, jantares e até com bailes (assaltos) em casa de familiares e amigos.
Quando era criança e jovem lembro-me que os meus pais nunca se esqueciam destes dias, pois mesmo que o fizessem o meu padrinho Adroaldo Garcia mal começava o novo ano lá estava ele a lembrar a comadre “Geraldina não te esqueças do dia de amigos”.
Estes jantares antigamente eram muito participados por todas as famílias que se reuniam somente em casa, não se faziam tertúlias (o amigo leva o amigo do amigo e no final, contamos pelos dedos quantos são os nossos amigos ali presentes) como hoje nos restaurantes até porque o número de restaurantes da cidade era em menor número. Tudo era mais saudável, vejo as amizades dos meus pais, parecem serem muito mais sólidas, hoje em dia já não se vê isso, nem a união familiar é a mesma, estamos todos mais distantes e com um pensamento muito mais individualista.
Amanhã começa a folia dos festejos de carnaval, divirtam-se, bebem com moderação para não estragarem a festa.

João Freitas

Cantar às Estrelas

Cantar às Estrelas a tradição continua viva

Cantar às Estrelas é uma tradição que ainda perdura nas freguesias, vilas e cidades da nossa ilha. Na véspera do dia de Nossa Senhora da Estrela ou das Candeias, entoam-se as vozes de homens e mulheres que cantam versos rimados à Senhora da Estrela, acompanhados pelos acordes dos característicos instrumentos de corda, como a indispensável viola da terra ou de dois corações.
O cantar às Estrelas, encerra as festividades natalícias e constitui uma manifestação natural da população, é uma tradição muito antiga, que se perde no tempo, não se tem conhecimento da data precisa.
Após o dia das Estrelas as famílias açorianas desmanchavam, algumas ainda o fazem, o presépio no dia das estrelas. As crianças (femininas) nascidas neste dia eram baptizadas de Estrela, como é o caso da minha prima “Estrelinha”. Aproveito aqui para lhe desejar os parabéns e muitos anos de vida.
Na freguesia de São Pedro de Ponta Delgada e até á pouco mais de vinte anos a tradição de cantar às estrelas também era vivida com entusiasmo, a mesma era organizada pela Banda Rival das Musas.
Segundo me recordo o grupo percorria as ruas da freguesia, cantando de porta em porta sempre animado pelo “José da Vila” figura muito acarinhada na filarmónica e que possivelmente trouxe de Vila Franca do Campo o espírito de folia que o caracterizava.
Quando eu vivia na Calheta achava muito interessante esse convívio, esse andar de rua em rua a cantar às estrelas. Hoje vejo isso como uma tradição que se mantém viva por iniciativa de populares entusiastas que teimem em preservar o que de bom tem a cultura popular Açoriana, não esquecendo os autarcas das nossas vilas e cidades que souberam aproveitar esta tradição ancestral e que possivelmente sem o seu apoio o cantar às estrelas tal como nós o conhecemos já tinha acabado.
Com o decorrer dos anos a tradição foi passando de geração em geração e os grupos são cada vez mais diversificados. Crianças, jovens e adultos reúnem-se para dar continuidade a esta manifestação cultural.
Das cidades que mais tem fomentado esta tradição é sem duvida a cidade da Ribeira Grande, onde mais uma vez as estrelas brilharam bem alto, com largas centenas de participantes e milhares de pessoas de toda a ilha a assistir.
Entremos no espírito da festa e que não se deixe morrer esta tradição. Siga a estrela…

João Freitas

A Velha Guarda de Jornalistas

João de Brito Zeferino na apresentação da revista Plantel

Na semana tão atribulada onde um órgão de comunicação social da nossa cidade dispensou alguns dos seus jornalistas de referência, foi com especial agrado que recebi a notícia que a Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting homenageou este sábado em Lisboa com o prémio carreira dois amigos e jornalistas da nossa terra, José Silva e João de Brito Zeferino.
Numa altura em que o poder do jornalismo e da informação está a ficar cada vez mais subordinado aos interesses económicos patronais é difícil manter os princípios fundamentais para se ser um bom jornalista.
O primeiro ponto do código deontológico do jornalista, diz que o jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade…
Para se ser jornalista é preciso ter o sentido de improviso, do imprevisto, ter uma vida activa, participar no dia a dia da sociedade, procurar ser-se isento, rigoroso e imparcial.
Mas para se ser um bom jornalista é preciso muito mais do que isto é preciso ser-se acima de tudo uma boa pessoa, honesto, ter ética e gosto pelo jornalismo.
Tive o grato prazer de trabalhar com ambos os homenageados nos meados dos anos 80 a 90, no “Jornal do Desporto”, numa época em que a escassez de meios materiais e humanos era notória, mas associado á visão de um homem, seu fundador, senhor José Ferreira de Melo, a boa vontade e o espírito de equipa imperava, muitas vezes com sacrifícios pessoais por parte da equipa de trabalho e colaboradores. Frequentemente me desloquei com o José Silva para os vários campos de futebol espalhados pela nossa ilha na sua viatura pessoal.
Deixo aqui um registo que demonstra bem o espírito daquela época.
Todos os Domingos o José Silva telefonava para os vários colaboradores para transcrever as notícias. Num Domingo o contacto com o colaborador das Capelas, que não tinha telefone e usava o do café perto de casa, estava a mostrar-se impossível, após várias tentativas o telefone tocava insistentemente, mas ninguém atendia. Como nada travava a força de vontade do José Silva, este resolveu ir ás Capelas. Qual é o seu espanto quando chega ao café e encontra o colaborador á porta do café, que tinha fechado naquele Domingo, a chorar desesperado por não poder enviar a notícia.
A velha guarda embora esteja a ser tratada indignamente nunca desaparecerá das nossas memórias e das palavras impressas.

João Freitas

Profissões Extintas

Vendedor de Trempes e Peneiras

Na crónica de á duas semanas passadas tive a oportunidade de falar de algumas profissões que hoje em dia já não existem, como por exemplo o amolador de facas e tesouras. No entanto não queria deixar passar a oportunidade de falar de muitas outras que em pouco mais de 20 anos deixaram de existir e que todos nós nos lembramos.
O desaparecimento de muitas profissões é explicado com a evolução da sociedade, das tecnologias e do próprio mercado de trabalho, algumas substituídas por robots, outras porque deixaram de fazer sentido.
Profissões que tinham algum peso económico na nossa economia, ou eram um complemento da sobrevivência de algumas famílias e que nos nossos dias já não fazem sentido mas foram profissões que alguns familiares meus exerceram a de caiador, carvoeiro, bordadeira, engomadeira, lavadeira.
Quem não se lembra dos vendedores de trempes e peneiras que percorriam as ruas da nossa cidade, o fotógrafo á lá minute do campo de São Francisco, o polícia sinaleiro que os semáforos vieram substituir ou do alfarrabista que tinha o seu estamine por detrás do liceu.
Uma das profissões únicas no nosso país e felizmente ainda existentes na ilha da Madeira é a de levadeiro, aquela que o meu avô paterno tinha enquanto viveu na ilha onde nasceu, esta profissão consiste em dar rumo as águas de irrigação dos terrenos nas levadas a determinadas horas e sítio para cada proprietário, encarregando-se de as conduzir até aos seus terrenos.
Outra das profissões em vias de desaparecer é a de engraxador, que há alguns anos se encontravam nas ruas de qualquer cidade.
Só na freguesia onde nasci existem várias profissões que já se extinguiram ou estão em vias de, nomeadamente modista, costureira, alfaiate, calafate esta muito procurada devido ao porto de pesca da Calheta, onde era preciso reparar os barcos de pesca.
Antigamente eram necessárias duas ou três pessoas para desempenhar o trabalho que hoje em dia é feito apenas por uma só.

João Freitas

O Rei dos Frutos

Paixão pelo Ananás desde criança

O ananás é sem duvida o rei de todos os frutos, não só pelo seu sabor e aroma únicos mas também pelas suas qualidades nutrientes importantes para a saúde, este fruto tem antioxidantes e anti-inflamatórios capazes de reduzir o risco de diversas doenças, rico em fibra, vitamina A B C E, magnésio e potássio, e não só.
O nosso ananás é um produto praticamente biológico com uma qualidade que o diferencia das outras variedades que por este mundo fora é produzido.
Este fim-de-semana a confraria do ananás dos Açores realizou uma série de conferências, e entronizou novos 14 confrades, cerimónias que assistiu com muito prazer a convite do meu amigo Rui Pacheco, homem que sempre se empenhou na preservação do nosso ananás.
As conferências que seguiu atentamente trouxeram-me à memória as tardes que passei na minha infância na quinta de estufas, situadas na Canada das Maricas na freguesia de São Roque, onde o meu avô João trabalhava. Lembro-me do cheiro da casa da fruta (armazém onde eram guardados os frutos), das estufas com os ananases prontos para serem colhidos, do cuidado como eram transportados os frutos, o estufeiro com muito empenho, cuidadosamente e com a fragilidade que ele exige, como se trata-se de um bebé recém-nascido.
Recordo-me o quanto era dura a vida de estufeiro onde se trabalhava de sol a sol e sempre com o mesmo empenho e dedicação que na altura era-me difícil de compreender.
Há dez anos atrás realizei um trabalho de fotografia sobre a produção do ananás que mais tarde passei a livro, em homenagem ao meu avô e a todos os estufeiros. Para o tornar possível passei muitas horas junto daqueles que trabalham nas estufas e em abono da verdade posso afirmar que voltei a viver a realidade profissional do meu avô e admirar aqueles homens de mãos rudes que escondem a delicadeza de quem sabe tratar a terra e os frutos com a dignidade que merecem, sempre com a alegria de ver nascer mais um fruto como se aquele fosse o primeiro das suas vidas.
Como escreveu o amigo Rui Pacheco no prefácio do meu livro e passo a citar “…a cultura do ananás encontra nos estufeiros, com o seu carinho e dedicação, a principal razão da sua longevidade de cerca de 150 anos…"
O Rei dos Frutos só terá o seu valor real quando cada açoriano consciencializar-se da sua riqueza e fizer dela o seu porte estandarte, teremos que ser nós a defendermos os nossos produtos, consumindo-os, porque os apoios governamentais e a boa fé dos empresários não são suficientes.

João Freitas

Quando a Necessidade Obrigava

O Livro que ensinou gerações
Já dizia Luís de Camões, “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”… Esta frase tem-se demonstrado oportuna ao longo dos tempos e na minha opinião não poderia estar mais certa que nos tempos de hoje.
Antigamente não vivíamos numa sociedade de consumo desenfreado. Aproveitava-se contrariamente aos nossos dias.
Os avanços científicos e tecnológicos multiplicam o tipo de indústrias, surgindo uma variedade imensa de produtos e serviços num mercado cada vez mais complexos e sofisticados, o que dão ás populações uma significativa melhoria das suas condições de vida.
Tudo isto é verdade e é de salutar, no entanto nos dias difíceis que temos vivido, mundialmente, leva-me a querer que a situação se irá alterar. Que os consumidores passarão a ser mais conscientes perante as dificuldades com as quais cada um de nós se irá deparar.
Esta semana ouviu na RDP-Açores, alguém ligado ao ambiente numa rubrica chamada “1 minuto pela terra”, apelar para o uso de faldas de pano como no tempo em que me criei. Como é lógico á primeira vista isto no século XXI não tem cabimento, mas após ouvir as explicações e justificação do ambientalista, até tem toda a lógica e deveria ser tida em conta. Uma criança até aos 2 anos e meio de vida consome quase 2 toneladas de faldas, é de ficar apreensivo.
Quando era criança, tudo era reciclado, pois a necessidade também assim obrigava. Havia um maior apego material, até porque as dificuldades eram acrescidas e era necessário rentabilizar, reciclando.
Quem não se recorda das roupas passarem dos irmãos mais velhos para os mais novos, virarem-se os casacos do avesso, as golas das camisas, transformar uma peça de vestuário noutra, das idas ao “Silva PIPI” para levantar as malhas caídas das meias.
Os livros escolares, extremamente cuidados, como por exemplo o da 1 classe, pois serviam pelo menos 2 gerações.
Naquele tempo era usual ouvir a passagem do amolador de facas e tesouras que se fazia anunciar com um som característico proveniente de uma "gaita de beiços", era a oportunidade de reparar as varetas dos guarda chuvas, a loiça de barro partida que era reparada com uma espécie de grampos, rebitar as tampas das panelas, amolar tesouras ou facas etc.
Família séria e honesta trabalhava a prol do sustento da mesma, cultivavam-se os quintais, criavam-se animais domésticos, cozia-se o pão.
Estou ciente que a história irá repetir-se, adaptada aos tempos de hoje.

João Freitas

Passagem de Ano

Fogo de artifício
Estou recordado quando nos anos oitenta eu e os amigos fazíamos contas para ver a idade que teríamos na passagem do século. Os anos passaram tão rapidamente que nem demos por isso e já vamos entrar na segunda década do século XXI.
Daqui a dois dias estamos outra vez a comemorar o ano novo, que no mundo inteiro festejasse com fogos de artifício, buzinadelas, apitos e gritos de alegria, em hotéis, casinos, avenidas, praças, ruas ou em salas de baile. A tradição é muito antiga e, dizem, que serve para enterrar o ano velho e receber o ano novo.
Todos os anos na noite da passagem de ano a nossa cidade veste-se de gala para receber o novo ano, milhares de pessoas enchem a praça Gonçalo Velho e a avenida Infante D. Henrique, para assistirem ao já tradicional fogo de artifício e abrirem centenas de garrafas de espumante enquanto desejam um bom ano aos familiares e amigos, no entanto esta tradição nem sempre foi assim.
Enquanto criança, as minhas passagens de ano eram um pouco diferentes, embora com o mesmo sentido dar as boas vindas ao ano novo e despedir do velho.
A noite começava com um jantar entre os amigos dos meus pais, em casa ora de uns ora de outros, os miúdos como eu, quase sempre jantavam á pressa para poderem ir brincar e rebentar as bombinhas que naquela altura eram muito usual e acima de tudo para ir ver passar a tradicional corrida de São Silvestre, que hoje em dia é no dia 18 de Dezembro vai-se lá saber porquê.
Pouco antes da meia noite a manifestação espontânea dos vizinhos era notória no lançamento de fogo de artifício, muitas vezes com simples queimar de palha de aço que dava um efeito muito colorido, era também usual o bater de tampas de panelas da cozinha para fazer barulho, era uma forma de comemorar o Ano Novo na minha infância onde não havia o que se diz hoje de tradicional fogo de artificio de Ponta Delgada.
Após a comemoração na nossa rua eu, os meus pais e os amigos agarrávamos numas garrafas de espumante e íamos ter com o senhor José Teixeira, taxista que trabalhava naquela noite para servir os seus clientes do Clube Micaelense, ao largo norte da Matriz para lhe desejar os bons anos.
Recordo como se fosse hoje, não se via aglomerados de pessoas a comemorar o ano novo, apenas o nosso grupo.
Muitas vezes questiono-me se não terá sido este grupo de amigos que deu origem á tradição de se ir para as portas da cidade.
A todos votos de um ano repleto de saúde.

João Freitas

Natal sem Cheiro

Presépio com cheiro

Estamos a dois dias da noite mais comemorada no nosso país, a noite onde a família se reúne para comemorar o nascimento do menino Jesus.
Será que o Natal ainda é a festa da família? Será que as crianças ainda acreditam no pai natal como no meu tempo?
Ainda me lembro do Natal, há muito tempo atrás, quando era uma criança, o Natal parecia uma festa maior, mais feliz e emocionante, onde naquela noite mágica todos os miúdos ansiavam pela chegada do pai natal.
Antigamente o Natal era sem dúvida mais pobre, sem as comodidades do século XXI, sem as mesas recheadas de hoje e sem os brinquedos com a tecnologia que os miúdos já não dispensam, mas era sem dúvida uma festa que todos aqueles com mais de 40 anos como eu devem recordar com nostalgia.
O Natal de algum tempo tinha um espírito diferente, era tudo feito com mais empenho e dedicação, as casas muitos dias antes da noite da consoada cheiravam a Natal, a fruta da época como o ananás a tangerina ou a mandarina inundavam os lares com o seu agradável cheiro, coisa que hoje em dia já não acontece, os presépios eram feitos a preceito, com os bonecos de barro, as casas de cartão, as pedras e o musgo natural a ornamentá-los, presépios que nada têm a haver com os actuais de plástico.
Hoje, o Natal igual ao da minha infância já não existe. Contavam-se os dias e as horas da chegada do Pai Natal, as famílias reuniam-se num convívio prolongado, fazendo da noite de Natal uma noite especial, onde reinava a harmonia, paz e amor. As famílias ainda se juntem á mesa, é verdade, os mais pequenos ainda vão apreciando as prendas, mas a consoada é feita apressadamente em cerca de 10 minutos, faz-se a refeição como se estivéssemos num jantar diário. O Pai Natal distribui as prendas aos mais pequenos, estes abrem os presentes tão rapidamente á espera de mais e mais, pois pediu-se muitos brinquedos e não apenas um, a rapidez é tal que o papel do pai natal fica quase sem importância. Tudo é feito numa correria como no quotidiano, as prendas por mais ricas que sejam já não têm o encanto de outros tempos onde um carro de “folheta” ou uma boneca de trapos fazia uma criança feliz.
Desejo a todos um Santo Natal na companhia dos seus.

João Freitas

Coragem e Honra

O meu tio Manuel Palheiro e eu

Na crónica da semana passada falei-vos dos pescadores da Calheta e do meu bisavô que tinha desaparecido no mar, hoje vou-lhes contar este trágico acidente.
No dia 3 de Fevereiro de 1919, o tempo ameaçava temporal, mas o chamamento do mar e a responsabilidade de sustentar a família foi mais forte que a prudência do meu bisavô e do meu tio-avô Manuel.
Ambos os irmãos embarcaram na sua pequena embarcação à vela para o lado de S. Roque, para colocarem os “cofres” às lagostas. Durante a azafame o tempo virou de feição, o vento soprou forte levando consigo a vela da embarcação, a ondulação levantou-se e virou o pequeno bote.
O meu bisavô, segundo contam os que ouviram a história era um exíguo e destemido nadador, um homem de coragem que perante as situações mais aflitivas dava animo aos companheiros de bordo. Mau agoiro o meu tio Manuel Palheiro não sabia nadar. Antevendo o perigo do seu irmão se afogar, o meu bisavô consciente que poderia salvar o irmão, não pensou duas vezes, heroicamente com muito esforço agarrou no irmão e colocou-o a salvo em cima da embarcação, virada. O momento era dramático mas havia que tomar uma atitude, então o meu bisavô, João, convenceu o irmão que apenas ele os poderia salvar, agarrou num remo deu-o ao irmão ordenando que remasse, enquanto ele iria a nado a terra pedir ajuda, O meu tio assim fez, enquanto remava ouvia os gritos do irmão a incentivá-lo “…Manuel rema…rema…Manuel…”. Passado algum tempo o meu tio deixou de ouvir o meu bisavô, desesperado gritava por socorro, mas não aparecia viva alma.
Após algum tempo avistou um cargueiro Americano que o salvou, mas do meu bisavô até hoje.
Sempre conheci o meu tio Manuel Palheiro como um homem sério mas bondoso. Honrado, dizia o povo, cumpridor das suas promessas. Quando adolescente contaram-me o porquê da sua seriedade então entendi que aquele homem carregava o duro fardo de saber que o seu irmão tinha perdido a vida em alto mar e tinha deixado três órfãos e que o mesmo tinha afirmado “ Enquanto eu for vivo, trabalharei para os meus sobrinhos, já que o mar não deixou o pai chegar a terra “.
O meu tio Manuel cumpriu com a sua palavra, criou os 3 órfãos, sendo a minha avó paterna uma das crianças, toda a sua vida fez da pesca a sua profissão, vivia honradamente do que ela lhe dava e ainda ajudava quem precisava.

João Freitas

O Sobejo

Venda direta de chicharros ao cliente
Conta o ditado popular que dos homens há os vivos, os mortos, e os que andam no Mar.
A vida no mar é dura e inclemente, mas foram muitos dos meus conterrâneos que não hesitaram em escolhê-la ou a herda-la dos pais ou avôs para sobreviverem aos tempos difíceis que passaram para alimentar as suas famílias.
Estes pescadores eram uns verdadeiros "heróis do mar" numa terra que, infelizmente, os foi esquecendo, tanto é que muitos dos jovens da geração seguinte á minha desconhecem que a Calheta era terra de gente do mar.
Mais do que qualquer outra freguesia de Ponta Delgada, São Pedro (Calheta Pêro de Teive) foi uma localidade piscatória, que forneceu muitas casas da cidade com a sua labuta diária, por vezes com tempo agreste e tempestuoso, como aquele que em 1919 ceifou a vida ao pescador João Palheiro (meu bisavô) que na sua lida diária nunca mais voltou a terra.
Dos pescadores da Calheta tenho na memória a azáfama que era a ida para o mar. Todos os dias quando passava das 22 horas, começavam a chegar os primeiros homens ao pequeno porto, carregando os apetrechos para a pesca ao chicharro, os petromax, os baldes de batata cozida para o engodo, as redes e os arcos. Sobre o olhar atento do mestre da campanha quando tudo estava em ordem era chegada a tarefa de arriar os barcos para só regressarem ao amanhecer.
Na manhã seguinte com a chegada da fauna dava-se início a um novo ciclo, sempre com as tarefas pré-definidas entre os pescadores, enquanto uns varavam os barcos, outros arrumavam as redes, limpavam as embarcações. Ao mestre cabia a tarefa de vender o peixe aos fregueses que no porto já os esperavam, venda esta que era feita á unidade, aos cento, meio cento ou á dúzia, um pescado com a frescura do mar.
Desta rotina diária o que realmente entusiasmava a garotada era quando as campanhas (grupo de pescadores) depois da venda do pescado iam para as tabernas fazer contas ao dia de trabalho. O mestre contabilizava a campanha, dividia em quinhões, três para ele, sendo uma para a embarcação, outra para os apetrechos e a sua cota. O restante era dividido entre todos os pescadores.
Após a contabilização existia sempre um pequeno acréscimo de alguns cêntimos que não era dividido, o sobejo, que era oferecido ás criança que aguardavam impacientemente no local, como o leitor calcula uma “serrilha” para uma criança naquela época era muito dinheiro.

João Freitas